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Vídeo sugerindo que Brasil já tem áreas protegidas demais viraliza nas redes e gera polêmica na comunidade científica

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Evaristo de Miranda se tornou um requisitado palestrante em eventos promovidos pelo agronegócio. Chefe-geral da Embrapa Territorial, ele comanda uma equipe de 20 pesquisadores e analistas que mapeiam o uso e a ocupação das terras em todo o território nacional. Parte dos conteúdos compartilhados por Evaristo tem soado como música para um segmento do agronegócio que sempre viu na floresta um obstáculo aos seus interesses.

Embora tenha colaborado com diversas equipes de transição em governos anteriores – inclusive do Governo Lula – Evaristo nunca teve o nome cogitado para ser ministro. Ao se aproximar da equipe do então candidato à presidência Jair Bolsonaro, quase virou ministro do Meio Ambiente. Teria declinado alegando motivos pessoais. Ainda assim, percebe-se na retórica do presidente eleito em favor da expansão da fronteira agrícola (com menos Unidades de Conservação e possibilidade de revisão das terras indígenas já homologadas bem como das comunidades quilombolas) o uso de algumas informações garimpadas nos trabalhos de Evaristo.

Um vídeo polêmico

Nesses primeiros dias de 2019, viralizou nas redes sociais um polêmico vídeo de 25 minutos em que Evaristo de Miranda aparece palestrando no VI Fórum de Agricultura da América do Sul, realizado em agosto do ano passado em Curitiba. Ele desfia uma avalanche de números para sustentar a tese de que o Brasil protege ou preserva quase metade de seu território (48,9%), o que equivaleria a 28 países da Europa. Segundo Evaristo, nos próximos 30 anos, o mercado mundial de alimentos deverá adicionar 40 bilhões de dólares em novos negócios, e apenas dois países teriam condições de disputar esse bolo: Brasil e Estados Unidos. Evaristo afirma de que produtores de milho americanos já estariam fazendo campanha para que os proprietários rurais de lá financiem as ONGs ambientalistas daqui que lutam pela preservação das florestas, e assim deixem o Brasil fora do páreo.

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“É legítimo dar terra para índio. O problema é que não cabe”, diz ele em certo momento da palestra, ao comentar que já existem 600 terras indígenas homologadas. Na gravação, Evaristo aparece também criticando o Cadastro Ambiental Rural (CAR), instrumento que assegura transparência à situação de cada propriedade no que diz respeito às regras de proteção previstas no Código Florestal. Diz que o CAR é o “maior trabalho escravo” da história do Brasil. “Cinco milhões de pessoas obrigadas (a fazer o CAR), sem ganhar nada, sob ameaça de perda de crédito, coagidas”.

Ainda segundo Evaristo, em média, metade da propriedade rural em todo o Brasil estaria hoje preservada, o que corresponderia a 25,6% do território nacional. Diz que ninguém protege mais o meio ambiente do que os proprietários rurais, e que, pelos cálculos dele, seriam mais de 3 trilhões de reais em ativos imobilizados em prol do meio ambiente. “É uma poupança que não dá retorno, não remunera nada. E os agricultores ainda estão gastando por ano quase 20 bilhões de reais para manter essas áreas preservadas.”

Repercussões do vídeo

Ouvi algumas opiniões sobre esta palestra que viralizou nas redes. Para o ex-ministro do Meio Ambiente na gestão Fernando Henrique Cardoso, José Carlos Carvalho, Evaristo trata os ativos ambientais – principalmente os da Amazônia – como um problema, e se esquece de dizer que as chuvas que sustentam a agricultura nas regiões Centro-Oeste e Sudeste dependem visceralmente das nuvens formadas a partir da Floresta Amazônica. Também causou estranheza ao ex-ministro que, em sua palestra, Evaristo de Miranda “omita deliberadamente o fato reconhecido pelo próprio Ministério da Agricultura, de que o Brasil possui 50 milhões de hectares de terras degradadas, abandonadas ou subutilizadas pela agropecuária”. Segundo o ex-ministro, “é uma grande contradição do agronegócio brasileiro defender novos desmatamentos e deixar uma área equivalente a duas vezes o tamanho do Estado de São Paulo degradada ou subutilizada”.

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Ministro do Meio Ambiente no Governo Lula, Carlos Minc, diz que a visão de Evaristo é estreita e manipuladora, e suas conclusões são devastadoras para o país do mundo que mais desmata e extingue espécies ameaçadas. “Isso acontece não só na Amazônia como no Cerrado, onde o Evaristo acentuou a produção de grãos. Este desmatamento do Cerrado ameaça diretamente e comprovadamente as matas ciliares e a oferta de água doce, sem a qual a agricultura não poderá seguir se expandindo”. Além disso, enfatiza Minc, Evaristo desconhece os estudos do Ipea e da Embrapa que atribuem valor econômico aos parques e as florestas em pé.

Carlos Rittl, do Observatório do Clima, entende que os dados divulgados no vídeo por Miranda nem deveriam ser discutidos seriamente, já que nunca foram publicados como artigos científicos. “Os slides exibidos contêm várias distorções. Por exemplo: ele usa dados de áreas declaradas pelos proprietários de terra como reserva legal e área de preservação permanente (no Cadastro Ambiental Rural), como aquilo que iremos encontrar no território. Mas não usa qualquer análise de imagens de satélite para comparar o que foi declarado com o que existe de fato na propriedade. Várias análises preliminares feitas por instituições sérias como o Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) constataram muitos problemas nessas declarações”. Ainda segundo Rittl, Miranda inclui as Áreas de Proteção Ambiental (APAs) – que correspondem a mais de 50% área das Unidades de Conservação do país – dentro do cálculo das áreas onde não se pode produzir nada. “Na verdade, a atividade produtiva é regulamentada dentro dessas áreas. Ele distorce, portanto, não apenas a realidade do território, mas a própria leitura da legislação”, afirma.

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