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Poderia a imprensa cobrir eleições abrindo mão de pesquisas eleitorais?

Poderia a imprensa cobrir eleições abrindo mão de pesquisas eleitorais?

17/01/2019 às 18h57 Atualizada em 17/01/2019 às 23h57
Por: Redação
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Hugo Souza Não chegou a ser um terremoto, mas as declarações de uma das mais importantes figuras do jornalismo americano (se não por nada, por causa do cargo que ocupa), dadas num famoso programa de crítica de mídia da CNN, parecem ter causado certa trepidação na imprensa dos EUA. Ou pelo menos pode ser o início de uma chacoalhada na mídia no sentido de mudar a qualidade da cobertura eleitoral, da cobertura política, e, portanto, a qualidade da relação da imprensa com a Democracia. No último 6 de janeiro, no programa Reliable Sources, Sally Buzbee, editora-executiva da Associated Press – maior agência de notícias dos EUA – exortou a imprensa dos EUA a gastar menos tempo, “ou talvez perder tempo nenhum”, com pesquisas de intenção de voto sobre a corrida à Casa Branca do ano que vem, aquela na qual Donald Trump tentará a reeleição – conforme nos lembrou, há pouco, o deputado Eduardo Bolsonaro, que saiu da Casa Branca usando um boné “Trump 2020”. Nos EUA como no mundo, a cobertura das eleições majoritárias pela mídia é altamente balizada por aquilo que nos EUA atende pelo nome de “horse race”, a corrida eleitoral, os números dos institutos de pesquisa que dizem, informam, indicam quem larga na frente, quem pode disputar cabeça a cabeça, quem não chance, etc, em detrimento, pelo menos aparentemente, daquilo que o crítico de mídia e professor da Universidade de Nova Iorque Jay Rosen chama de “agenda dos cidadãos”, ou seja, o que as pessoas esperam que os candidatos discutam, sobre o quê elas querem que eles falem. A própria Sally Buzbee, no programa da CNN, disse que não tinha lá muitas esperanças de que as empresas da mídia dos EUA, Associated Press incluída, prestassem atenção nas suas palavras. Mas não foi exatamente o caso. O chamamento de Sally, que assumiu o cargo na AP na virada do ano, a que se deixe as pesquisas eleitorais em segundo plano, ou em plano nenhum, ecoou em alguns dos mais importantes órgãos da imprensa americana, como The Washington Post e The Atlantic. No Washington Post, a colunista de mídia Margareth Sullivan apoiou a editora-executiva da AP e evocou precisamente a “agenda dos cidadãos” de Jay Rosen, reproduzindo algo que o professor escreveu em seu blog no dia 7 de novembro do ano passado: “Prever o vencedor? Isso é sucesso? Mesmo que os jornalistas pudessem fazer isso (e eles não podem), não seria muito de um serviço público, seria? Uma coisa muito estranha sobre a cobertura da horse race é que ela não responde a nenhuma necessidade identificável do eleitor. Devo então votar no candidato com a melhor estratégia para obter meu voto?”. É a crítica mais comum ao uso e abuso de pesquisas eleitorais: ela faz o processo democrático do sufrágio universal parecer um torneio esportivo e “incentiva” o eleitor a cerrar fileiras com o líder. No Post, Margareth Sullivan lembra que, no início de 2016 (ano em que Trump foi eleito presidente dos EUA), quando trabalhava no New York Times, fez uma pesquisa nos textos de jornalismo político publicados pelo jornal um período de duas semanas, e verificou que três de cada quatro deles era sobre a “horse race”. E conclui, a colunista: “Isso está acontecendo novamente agora”, lembrando que, no mesmo domingo em que Sally Buzbee dizia o que disse na CNN, o Times publicava um artigo de destaque intitulado “Tensão partidária: pode uma mulher derrotar Trump?”, referindo-se à senadora democrata Elizabeth Warren, que se lançou pré-candidata à Casa Branca. Mas houve também quem criticasse a insurgência contra o foco em pesquisas eleitorais. No conceituado site Politico, Jack Shafer, escreveu que “informar as pessoas sobre quem está ganhando e quem está perdendo na corrida eleitoral de 2010 não é algo trivial; é algo de crucial importância para o trabalho da mídia”. Sobre o número de matérias com foco em pesquisas, Shafer ponderou: “O ‘horseranismo’ pode ser assustador se o grosso da cobertura da campanha produz nada além de quem está no topo ou quem está abaixo nas pesquisas. Mas isso nunca foi o caso. Em jornais americanos abundam matérias detalhadas sobre as questões e as posições dos candidatos”. Ele lembra que no final da campanha de 2008, a então ombudsman do Washington Post, Deborah Howell, fez um levantamento da cobertura política daquele ano e encontrou 1.295 matérias de “horse race” e “apenas” 594 histórias sobre ideias, por assim dizer. Mas Shafer chega a conclusão diferente da de Margareth Sullivan: “Esta proporção parece defensável, tendo em vista que a posição dos candidatos na corrida eleitoral pode mudar diariamente. As matérias sobre as questões e as posições dos candidatos não precisam desse tipo de revisão constante, especialmente se forem bem feitas”.
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